Os cães de Santiago, Chile

Este post estava para nascer desde setembro de 2011, quando uma de nossas voluntárias visitou Santiago, no Chile, e trouxe alguns registros de como os cães convivem pacificamente com as pessoas na capital do país. Pela correria típica de fim de ano, o próprio blog ficou desatualizado, mas o recente episódio do recolhimento dos cães da Praça da Bandeira, onde viviam há mais de 15 anos, fez o post nascer na hora certa. Então, segue abaixo o relato da voluntária.

“No primeiro dia em que saímos para passear pelas ruas de Santiago, chamou a atenção o grande número de cães de grande porte que andavam livremente pelas ruas. Na primeira olhada, pensei que eram cães que ajudavam os guardas, pois estavam em volta deles e saíam perseguindo os carros. Mas logo ficou claro que não – aqueles eram cães de rua, grandes, bem alimentados e brincalhões. Como estávamos em um city tour, perguntei ao guia de quem eram os cães e tive a confirmação: não eram de ninguém. E quem cuidava deles? Resposta: ‘As pessoas que trabalham pelo centro trazem comida de casa para eles; sentam na praça e brincam com os cachorros na hora do almoço’.

Nós mesmos, na rápida passada pelo centro fomos seguidos por um cão imenso e peludão, que pedia carinho encostando a cabeça nas mãos da gente.

Meu Deus, que diferença! Nem preciso dizer que, como voluntária da Apata, fiquei com um nó na garganta: aqueles cães eram 2 ou 3 vezes o tamanho dos nossos, pois precisam resistir ao frio, e mesmo assim conseguem se manter na rua graças à consciência e à solidariedade das pessoas. Enquanto aqui temos cães esqueléticos, enxotados dos locais, queimados com água fervente.

Em Santiago, os cães estão em todos os lugares. Esse da foto acima estava na Praça do Pálacio La Moneda, o palácio do governo, durante a cerimônia de troca da guarda. Alguém tirou ele de lá? Não.Os passantes tinham que desviar dele no burburinho da cerimônia. Ele ficou lá o tempo todo e deu um trabalhão tirar essa foto, pois não parava nunca de passar pessoas por ali. Inclusive, não consegui tirar uma foto sequer da cachorrada no meio do povo, pois era muita gente circulando.

O cão da foto abaixo, imenso, estava na entrada do mesmo Palácio, sede da Presidência da República. Ele não estava muito preocupado em ser recolhido. Será que no Chile não existem crianças ou pessoas que temem os cães? Certamente eles são da altura de uma criança de 4 anos. Durante os dias que andei pelas ruas da capital, não vi nenhuma cena ameaçadora entre animais e pessoas.

Os cães das fotos abaixo – todos – estavam em locais turísticos, frequentados por muitas pessoas, ou em vias públicas. Em alguns casos, cheguei até a pensar que eram cães de guarda dos locais, mas conforme tinham vontade, saiam a passear pela cidade e talvez nem voltassem mais ali.

O local da foto acima tinha guardas para controlar a entrada de turistas e dar informações. Ficamos por ali um tempo e não vimos, em nenhum momento, os guardas enxotarem os cães. Quando um dos animais quis, levantou e foi andar…

Uma das coisas mais curiosas que vimos foi esse cartaz da foto abaixo. Alguém encontrou uma cocker, criou um e-mail para as pessoas entrarem em contato e afixou cartazes em um bairro, procurando pelo dono.

Como era setembro, imagino que o caso era antigo (dezembro/2010), mas a evidência continuava ali.

Enfim, passamos 5 dias em Santiago e arredores, vimos muitos cães de rua muito mais bonitos e bem cuidados do que animais daqui que têm dono. Durante muito tempo fiquei pensando no grau de evolução e sensatez que as pessoas precisam chegar para entender que o direito ao espaço público não é só delas; que o respeito a todas as formas de vida é uma obrigação humana.

Infelizmente, hoje, 31/01/12, ficamos sabendo da retirada dos cães da Praça da Bandeira, um local que era muito mais deles do que nosso. Uma atitude tomada pelo poder público que dá um exemplo que as pessoas não deveriam ter: mude o “problema” de lugar e está tudo bem.

Por tudo isso, só tenho a lamentar. Ao contrário do que muita gente pensa, Taquara não é uma mina de sabedoria. Existem lugares que têm muito a nos ensinar. E se existem cidades onde as coisas funcionam e o respeito com a vida é maior do que aqui, isso significa que são os nossos conceitos que devem ser revistos.

Dizem que um governo é o reflexo do seu povo, não é? Eu só posso concordar e lamentar mais uma vez. Sabemos que novos governos virão. Mas quanto tempo vai levar até que uma nova consciência de “povo” venha também?

E antes que alguém diga “mas são apenas alguns cães que foram recolhidos da praça… não há necessidade de tanta polêmica”, é legal lembrar que não estamos falando disso. Estamos falando sobre a transparência dos atos públicos, e isso diz respeito não só aos animais, mas principalmente às pessoas.”

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Então, pessoal, esse foi o relato da nossa voluntária que viajou a Santiago em setembro de 2011. O que vocês acharam dos cães espalhados pela cidade convivendo pacificamente com a população? Deixem seus comentários!